PRIMEIRO FILHO: PLANEJE AS FINANÇAS OU PADEÇA

A chegada do primeiro filho é um momento único e, naturalmente, também traz consigo a ansiedade que brota de tudo que é novo e relativamente desconhecido. Por mais que estudemos, pesquisemos e nos preparemos para ter e criar um filho, só saberemos o que é ser pai ou mãe a partir do nascimento e o desenvolvimento da criança, e todas as decisões que precisaremos tomar rotineiramente a partir daí.

As finanças costumam assombrar os pais de primeira viagem, que se colocam perguntas do tipo: teremos dinheiro para prover ao nosso filho tudo de que necessita? Como vamos conseguir tanto dinheiro com a renda limitada que temos hoje? Qual gasto ou investimento devemos priorizar no desenvolvimento do nosso filho? Quanto devemos economizar para garantir a educação dele?

Para reduzirmos a ansiedade e elevarmos a segurança quanto à sustentabilidade financeira da família no longo prazo, precisamos introduzir o planejamento – quer gostemos ou não – definitivamente em nossas vidas. É um trade off: quanto mais nos planejarmos, menores as aflições. E assim dormiremos mais tranquilos, quando o bebê deixar…

Listamos algumas dicas que vão nos ajudar a planejar as finanças da família desde o nascimento até a formação do primeiro filho, ou do berço à faculdade.

Planejar a concepção

Nosso planejamento financeiro começa muito antes da concepção. O primeiro passo é estabelecer quando gostaríamos de ter o bebê. Assim teremos tempo prévio suficiente para nos prepararmos financeiramente para o nascimento e os primeiros anos de vida dele. O ideal é começar o planejamento financeiro dois anos antes do nascimento.

Ajuste do orçamento

Precisamos entender, a fundo, nossos gastos e receitas. Caso estejamos deficitários – sai mais dinheiro do que entra –, é hora de ajustarmos o orçamento com o corte de despesas, mudanças de hábito ou adição de novas fontes de receita. O ideal é que haja uma sobra de, no mínimo, 30% da renda familiar – porcentagem que, estima-se, seja suficiente para cobrir as necessidades correntes da criança. Para não cairmos na tentação de gastarmos as economias, é importante aplicarmos essas reservas em um fundo que renda, ao menos, acima da inflação. Este fundo será útil na hora de montar a estrutura para receber o bebê e para eventuais emergências ou gastos não previstos, funcionando como um “resgate” financeiro.

Por exemplo: se um casal tem uma receita conjunta de R$ 10 mil, deverá ajustar o seu orçamento para que, no final do mês, sobrem R$ 3 mil (receitas menos despesas). Se eles planejaram o nascimento do filho para daqui a dois anos, terão, portanto, 24 meses de economias guardadas – o que equivale a R$ 72 mil, mais os rendimentos do fundo. Além disso, já terão o seu orçamento ajustado previamente para a chegada do bebê.

Cálculo das despesas

Com o bebê já a caminho, precisamos calcular quanto vamos gastar com ele. Em uma planilha, listamos todos as despesas previstas com estrutura (físicas), como berço, carrinho, bebê conforto, cômoda, enxoval, reforma e decoração do quarto. Em outra planilha, enumeramos as despesas previstas com a mãe e o bebê durante e após a gestação (variáveis), como consultas, exames, vacinas, fraldas, roupas, papinhas, chupetas, brinquedos, livrinhos, planos de saúde, babá e creche, além de possíveis aumentos nas contas de luz e gás, entre outros. Nesta etapa do planejamento, é crucial conversarmos com amigos e parentes que foram pais recentemente, de modo a termos uma aproximação mais realista sobre quais são as despesas essenciais e quanto elas devem nos custar. Isso trará mais confiabilidade às nossas projeções e assertividade ao planejamento!

Quanto às despesas físicas, podemos pagá-las com parte do dinheiro guardado na aplicação financeira. É importante estabelecermos um teto, para não cairmos na empolgação das compras que, invariavelmente, nos leva a gastos excessivos e, muitas vezes, desnecessários. Por exemplo: o casal decide gastar 40% de suas reservas na estrutura para o bebê. Se as despesas listadas na planilha forem superiores a este teto, então terão de cortar o supérfluo e excessos, optando por decorações mais simples, móveis usados, enxoval básico. É sempre possível fazer mais com menos!

Quanto às despesas variáveis, listadas na segunda planilha, é fundamental avaliarmos se elas estão dentro da margem mínima de 30% da receita familiar reservada mensalmente para as despesas correntes do bebê, como planejamos anteriormente. Aqui, três situações se apresentam:

. Se a nossa previsão de despesas superar os 30% da receita familiar mensal, devemos revisá-las e tentar adequá-las para que caibam no orçamento, por exemplo eliminando excessos e supérfluos, buscando soluções alternativas como roupinhas de segunda mão, compra de fraldas no atacado etc. Se, ainda assim, estivermos estourando o orçamento, então precisaremos reavaliar as despesas do casal e cortá-las onde for possível, assim como buscar fontes de receita adicionais, de modo a elevar o percentual mensal da receita dedicado às despesas do bebê para 35%, 40%.

. Se nossa previsão de despesas equivaler aos 30% da receita familiar mensal, ótimo! Estamos dentro do planejado. Porém, é igualmente importante fazermos o exercício diário de avaliar possíveis cortes de custos para que haja sobra de recursos para aplicarmos no fundo de investimento dedicado à criança.

. Se nossa previsão de despesas for inferior aos 30% da receita familiar mensal, poderemos aplicar os recursos previstos, mas não gastos, no fundo de investimento.

E como calculamos essas despesas?

O cálculo das despesas com o bebê requer mãos à obra! Com todos os itens listados nas planilhas, o próximo passo é pesquisar preços, compará-los e adicionar os com melhor custo-benefício à tabela, simulando o montante que vamos gastar com cada item por períodos de tempo. A internet será nosso grande aliado nessa tarefa.

Planejamento é religião

Nossas crianças já estão crescendo e novas despesas começam a surgir, como escolas, cursos de idioma, atividades esportivas, culturais e de lazer, alimentação, viagens etc. Cada família terá a sua estrutura de gastos, de acordo com os objetivos de criação e desenvolvimento que pretendem alcançar com os seus filhos. Independentemente desses objetivos, o fundamental é revisarmos o planejamento financeiro a cada ano, atualizando as despesas e as receitas da família, e, sobretudo, avaliando a porcentagem destinada aos gastos com o filho, como já explicamos anteriormente. Este trabalho permanente nos ajuda a controlar os gastos – nossos e de nossos filhos – e a tomar decisões rapidamente quando o orçamento ameaça escapar.

 

Longo prazo

De olho nos elevados custos com educação superior, devemos separar parte de nossa receita para um investimento de longo prazo, com melhores rendimentos, de modo a garantir parte dos recursos necessários para o pagamento da faculdade do filho. O ideal é escolhermos uma nova aplicação, além da que já havíamos criado antes do bebê nascer, para que nela se concentrem somente as reservas financeiras destinadas aos gastos com educação superior, como mensalidades, livros, viagens ao exterior para complementação dos estudos e extras.

Como já comprometemos parte considerável da receita familiar com os gastos diários com o filho, restam-nos algumas opções para arrecadar mais recursos e aplicá-los no novo fundo de investimento:

. Revisão e corte de despesas pessoais supérfluas e direcionamento do montante economizado para o investimento;

. Aplicação das receitas extras, como bônus, prêmios, participação nos resultados, restituições de imposto de renda e um terço de férias, no fundo de investimento;

. Investimento mais forte na educação primária e secundária para que o filho esteja mais apto a conquistar uma vaga em universidade pública, aliviando os gastos futuros com educação superior. No entanto, precisamos estar cientes da possibilidade de que isso não aconteça e ele acabe em uma faculdade particular. Neste caso, uma opção é recorrermos aos planos de crédito estudantil para o pagamento das mensalidades, cuidando sempre para jamais excedermos a nossa capacidade de pagamento, o que nos exporia aos juros e multas.

Aposentadoria

A criação e o desenvolvimento do nosso filho não devem se sobrepor à garantia do nosso futuro, como pais. Caso contrário, os filhos terão de arcar com despesas financeiras inesperadas quando os pais se aposentarem e não tiverem os recursos necessários para a própria sobrevivência. Desde a união do casal, é importante aplicarmos parte da receita em um plano de previdência privada que nos garanta um futuro mais estável.